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abril 30, 2009

Victor Oliveira Mateus



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7 .

Em Lefteris é que eu me quero. No colorido vário
da sua pequena praia. No seu ar selvagem a concordar
contigo, quando esfarelas as folhas do tabaco
e, alheadamente, as misturas com o que sempre
compras no agitado mercado de Potamos.
Ágios Lefteris, escreves tu com uma navalha,
numa das tábuas do chão, debaixo do alpendre.
A mesma com que em mim, náufrago a intuir caminhos
jamais representáveis, também escreves sentires
de que não falamos. Ou então é de nós que traças

breve e rigoroso esboço. Desta nossa vocação translúcida
para apascentar palavras, que, devendo ser sagradas,
tantas vezes atraiçoamos na espinhosa gramática
dos afectos. Com um graveto remexes os seixos
junto à linha d'água e o silêncio é uma planície
súbita e felinamente apanhada pelo desejo. O desejo.
Não o cego impulso sem fonte nem direcção, mas
essa infinda avidez de ser o outro, como coisa nossa
que nos prolonga e individua, bem longe do ser
gratuito, que, divisa deste tempo, a tantos mata

de vida sem contornos nem alimento. O desejo.
O pulsar-me das veias ao despique com o comedido
desgoverno da alma. O agradável tormento de nós
ante a imensidão do mar e o esmorecer do sol
(só em Lefteris há um pôr-do-sol assim!),
enquanto o teu galgo corpo galga galhardamente a casa
e, ridente e rígido, ressurge com a luminosa voz
de Angélica Ionatos por detrás: Lygmos Aggelon.
É uma canção que fala do transido soluçar dos anjos.
Uma canção que fala desses soluços, desse pretexto

para que soltemos os nossos pássaros e com eles cantemos
debaixo das janelas que insistem em fechar-se-nos.
É em Lefteris que eu me quero, decididamente!
Lugar do mais admirável deslumbramento, dos mais
inexprimíveis sinais em mim atento e despojado.
Mas, entretanto, enquanto o tempo ainda é e não resiste,
tu, que estás e me seduzes, põe de novo a canção
que fala dos soluços dos anjos, a irresistível voz
de Ionatos e, com teus decididos gestos, abre-me
com doçura a janela, o corpo, a morte pressentida.

Victor Oliveira Mateus

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Publicado por pilantra às abril 30, 2009 12:22 AM

Comentários

Pilantra, agradeço-lhe o post e a prova de solidariedade.
Grande abraço.

Publicado por: Victor Oliveira Mateus às abril 30, 2009 08:26 PM

Também gostei de ver aqui este poema, que até já foi passado para françês. E há outros de "azuis", "cegonhas" e desatinos contidos, que vale a pena visitar.

J.

Publicado por: Inês Lourenço às maio 1, 2009 02:22 AM

Victor, não tem que agradecer: gostei bastante de vários dos seus poemas. Além disso, também eu não resisto à voz de Ionatos!
Mais : «a césar o que é de césar» - eu é que tenho de lhe agradecer o livro!
E desejar-lhe... que se lembre de mim na próxima vez... rs rs rs
Abraço!

Publicado por: pilantra às maio 1, 2009 04:52 PM

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