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abril 29, 2009
Cláudio Neves

O GRITO
( sobre um quadro de Munch )
Há sempre um fiorde e uma ponte
em toda a vertigem humana,
e sempre essas nuvens em chama
no som da palavra horizonte.
Há sempre um fiorde, uma ponte,
dois homens de negro e o louco,
e curvas no espaço amplo e pouco,
e ser nesse andrógino instante.
Há sempre dois barcos que somem
além do fiorde e da ponte
que brumas tão rubras consomem.
E nesse grito a que ninguem responde,
há sempre esse eco bifronte,
esse espaço sem quando, esse tempo sem onde.
DUPLO
Eu finjo ser quem fui,
porquanto assim me seja
real ser o que frui
e não quem o deseja.
Eu tento ser quem era
somente porque é belo
e inútil, e desespera
tentar ser mais do que sê-lo.
Finjo sempre nesta hora
de crepúsculo incompleto
em que duvido se é minha
a sombra azul que projecto.
Cláudio Neves

claudiomns@gmail.com
Publicado por pilantra às abril 29, 2009 12:04 PM
Comentários
Manuela, obrigado pela postagem. Espero que você tenha gostado do livro e tenha visto por lá o restante do poema sobre os gatos, que a Inês postou. Se desejar mais exemplares, é só me escrever, que os envio de imediato.
Um abraço
Cláudio
Publicado por: Cláudio Neves às abril 30, 2009 05:49 AM
Gosto muito destes poemas. O Cláudio desconhece a
nossa conversa "logresca" acerca de gatos e cães,
mas - cara Pilantra - o próximo livro dele "vai
chegar com cão incluído"... depois verá.
Grande abraço.
Publicado por: Victor Oliveira Mateus às abril 30, 2009 08:20 PM
Dito assim, Victor, a Manuela vai achar que sou um veterinário amador...rs
Um abraço
Cláudio
Publicado por: Cláudio Neves às abril 30, 2009 09:35 PM
Descobri a poesia do Cláudio, por intermédio do Victor. Singularmente encontrei nessa poesia de um autor brasileiro, encontrei sintonias (a infância, a morte, os bichos, a busca,a vulnerabilidade, o indistinto lugar do ser)que tantas vezes não encontro na nossa poesia.
Sou pouco de me entusiasmar com uni-versos, mas preferentemente com di-versos; mas apetece lembrar aquele lugar-comum tipo: "poesia linguagem universal".
Inté, menoinos e menina. :))))
I,
Publicado por: Inês Lourenço às maio 1, 2009 03:08 AM
Cláudio, eu já conhecia bem os gatos - que a Inês enviou-me a colecção e vi que não se saíu nada mal!
Mas sempre quero ver como se vai safar dessa de «veterinário de cão», já que sou bem mais exigente com cães do que com gatos! rs
Publicado por: pilantra às maio 1, 2009 10:09 AM
Victor, agradeço-lhe a denúncia do cão e cá fico à espera do dito rs rs
Publicado por: pilantra às maio 1, 2009 10:17 AM
Inês,
Esqueceu que o Brasil é um continente? Lá cabe toda a poesia do mundo.
O portugalito, coitadito, não tem assim tanto espaço para se estender! rsrsrs
Publicado por: pilantra às maio 1, 2009 10:23 AM
Pilantrinha,
Como sabe, nem sou nada a puxar para o nacionalismo; mas, de facto deixámos lá a Límgua Portuguesa, (entre outras coisas) e a mim encantam-me certas expressões e vocábulos do português de 500, que no Brasil ainda se empregam em linguagem corrente.
Abraço
I.
Publicado por: Inês Lourenço às maio 1, 2009 11:45 PM
Ora aí tem, explicada, resumida e sentida por si, a minha adesão à «nova ortografia».
Bem sei que o meu portugês é mestiço, que a minha visão da lingua portuguesa é exterior à «pátria portuguesa», que há casos pendentes a pedir limagem - mas também na variante portuguesa. Só isso.
Que no mais, peguemos de novo no livro do Cláudio e regalemo-nos com a pureza e beleza da «variante brasileira».
O Cláudio é um escritor brasileiro? Sim, evidentemente, pelo conteúdo.
Na forma, que poderemos dizer do seu domínio da língua portuguesa? Que é belo e perfeito. Que não é, sequer, uma «variante»: é a própria lingua portuguesa.
A língua portuguesa está bem entregue
no que à cultura brasileira se refere.
As versões que existem do português são, de facto, e lá como cá, a «variante escola» e a «variante autodidáctica».
É certo que, para mim, a escola é absolutamente imprescindível - mas é no autodidactismo que se inicia a arte.
«Populismos», todos fazemos e temos, e todos são novas hipóteses (ou novas oportunidades, se preferir) da nossa língua - que ela também é nossa, dos «mestiços».
E sim, também a acompanho na ternura e no deleite da verificação do uso dos arcaísmos de 500 que se registam no Brasil - e que nós, portugueses, abandonámos há muito e nem sempre de acordo com a melhor ciência ou coerência.
Abraço grande,
M.
Publicado por: pilantra às maio 2, 2009 11:21 AM
Amiga,
Não me queria meter por aí. Para já a dicotomia forma/conteúdo, deixou de existir linguisticamente, desde os Formalistas Russos que rejeitaram "a forma como envelope" e outros linguistas, nas primeiras décadas do séc. XX.
Pode haver conveniência política (somos só 10 milhões... ou económica,também do Brasil: o mercado angolano e dos PALOPS restantes ou então preconceitos ideológicos, etc. Mas, nenhuma das grandes Línguas de Cultura (espanhol, francês, inglês, alemão) se prestou a deformações morfológicas que lhe desvirtuam a matriz civilizacional de onde provêm.
A Literatura Brasileira é excelente. Mas, enquanto tal, começou quando?
Quanto ao português de 500 com o sotaque belo e cantabile brasileiro faz parte das diversidades existentes, como em tudo.Também têm imensos vocábulos tupis, guaranis e por aí fora...
Eu sou uma apaixonada pela etimologia. Não gosto nada que me mexam nas históricas marcas de latinidade da minha Língua.E também não simpatizo com univocidades, só de decreto, como calcula.
Beijo.
I.
Publicado por: Inês Lourenço às maio 2, 2009 09:22 PM
Inês e Manuela,
Olha, eu não tenho tanta consistência assim para falar do assunto, mas sou professor de Português e usuário do idioma. Acho que se dá valor demais ao Acordo, que, na verdade, atinge uma percentagem ínfima do léxico. Eu, de minha parte, sou meio reticente a ele, porque sou contra reduções. Mas não o acho de todo mal, no que diz respeito a algumas implicações normativas sobre as quais o número de exceções superava a norma.
É o caso do uso do hífen, que, com o Acordo, ficou mais simples, tanto aqui quanto aí. Já em relação à supressão de consoantes, vou sentir falta. Talvez seja apenas nostalgia, que já ando pela idade de tê-la sem maiores constrangimentos. Mas acreditem: o sabor daqui e daí continuárá basicamente o mesmo. Porque ele se dá na sintaxe, nas preferências históricas por um jeito ou outro de expressar a mesma coisa. E isso ocorre, também, dentro do Brasil. No interior do Nordeste, por exemplo, usa-se o passado perfeito composto. "Eu me vesti ligeiro, mas seu avô tem chegado tarde, e por isso atrasamos." Isso é comum: a redundância do pronome pessoal, o pronome proclítico, o adjetivo estranho no lugar do advérbio, o pretérito composto no lugar do simples, o verbo atrasar em forma não reflexiva. Dito aqui, no registro frio da tela do PC, é quase nada, mas vindo da boca octogenária, sulcada por sucessivas estiagens e uma dúzia de filhos (dos quais três ou quatro natimortos) é de uma ternura quase indizível. Ou a dona Clara, lá da pensão da Guarda em que me hospedei no último inverno: "Gostei muito deste bocadinho consigo", esse "consigo" que nós estranhamos, o "bocadinho" não do doce (como por aqui), mas do tempo... Tudo isso ninguém muda por decreto, acordo... Pessoa rimando "tenho" com "tamanho" e eu tendo que explicar aos meus alunos uma sonoridade outra. Isso tudo está para muito além do que decidirmos ou deixemos de decidir.
E, Manuela, se você olhar direitinho, vai ver que eu emprego alguns lusitanismos, principalmente nos sonetos, sem pudor algum. Venha talvez da família portuguesa, o que é provável; venha talvez não sei de onde, o que é incerto, porém mais verdadeiro.
Um abraço
Cláudio
Publicado por: Cláudio Neves às maio 3, 2009 07:04 AM
Cláudio,
eu estou mesmo olhando (e sentindo) direitinho. rs rs rs
O mais importante para mim é também isso que você chama de «incerto»: «Venha talvez da família portuguesa, o que é provável; venha talvez não sei de onde, o que é incerto, porém mais verdadeiro.» É isso que eu amo mais na nossa língua.
Abraço!
Publicado por: pilantra às maio 3, 2009 09:13 AM
Ora, caras... "afetuosamente" sem "c", não tem AFECTO português.
Antipatizo com o Acordo, pelas razões que já expus. Não me custa nada, antes pelo contrário, ler um texto com marcas de brasilidade.Venham Guimarães Rosa, Drummond, João Cabral, Clarice Lispector. Os burocratas da CE mais os do negócio dos dicionários, mandem nos euros e farsas políticas, mas não nas línguas maternas.
E a questão é mesmo essa das marcas de oralidade. Mas, normas de texto são uma coisa e o desvio das normas (num trexto) só é permitido ao poeta ou ao escritor, que regra geral se estão borrifando para a importância política de Des(acordos).
Abraço
I.
Publicado por: Inês Lourenço às maio 4, 2009 12:50 AM
Inês,
Isso que você disse por último é um ponto sobre o qual não se legisla, e sobre o qual ainda vai se ver como fica. Realmente, não há garantias de que os escritores adotem, em uníssono, o Acordo.
Também foi assim, aqui no Brasil, nas normatizações anteriores, nas décadas de 40 e 70. Assim também com a grafia empregada por Pessoa na primeira edição da Mensagem - em que a língua é propositalmente arcaica (embora não se fixe numa diacronia, ou seja, não é o idioma dos descobrimentos nem o dos 800, 700 etc.).
Mas veja, por exemplo, que o acento da subtônica foi suprimido, bem como o diferencial, em diversos vocábulos, sem causar comoção.
Claro que o que você diz envolve "étimos" e, logo, raízes e famílias, o que não é tão simples quanto a mera supressão de marcas diacríticas. Nesse ponto está o que você define como como "deformações morfológicas". Mesmo no caso do hífen, vocábulos como "coerdeira" (tal como o grafa o novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, elaborado pelas Academias daqui e daí) não me parecem, a princípio, mas não por princípio, bem resolvidos, pois que, nesse caso, o próprio radical é alterado e deixa de sinalizar a raiz vocabular. Por outro lado, pergunto-me se o mesmo não se com "homo", que perdeu o "h" em vários processos de formação. Isso também transtorna, de certo modo, a metodologia de ensino, embora, pelo menos no Brasil, os professores já venham adotando, para fins didáticos, o "constituinte anterior", e não a raiz, no ensino da morfologia.
Agora, quanto ao afecto, você me pegou, porque eu disse no post anterior que sentiria certa nostalgia das consoantes. E o que você fala, em nível mais profundo, é verdade. Se leio "afecto" sei que se trata de um sentimento português que não encontra sinônimo, de fato, no correlato "afeto" do português corrente do Brasil. Nosso "afetuosmente" soa pura formalidade ao pé da carta ou do email, enquanto o "afectuosamente" me aquecerá o início do sono depois de lê-lo.
E sei disso sem sabê-lo, do mesmo modo que, não podendo explicar-me, recorro covardemente à palavra "nostalgia" para definir a falta que esse cezinho me irá causar.
Um abraço
Cláudio
Publicado por: Cláudio Neves às maio 4, 2009 03:40 AM
Maio, maduro Maio, quem te pintou?
Publicado por: pilantra às maio 4, 2009 10:34 AM
Cláudio,
Pois. Você explica, mais do que isso, ilumina a questão. As Línguas são, de facto, sismógrafos "in absentia". Quando digo "uvas", mesmo sem as vermos, todos pensamos nesse fruto, embora segundo os sítios, pensamos, de maneira diferente. Li que no Canadá (Quebec) há 10 palavras para "neve" e na Nigéria nenhuma.
Vamos vendo o que acontece. "Gostei muito deste bocadinho"!
Afectuosamente.
I.
Publicado por: Inês Lourenço às maio 6, 2009 08:09 PM
Nélinha,
Depois do maduro Maio, vem o esplendoroso Junho, geminiano...
Abraço
I.
Publicado por: Inês Lourenço às maio 6, 2009 08:14 PM