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novembro 07, 2008

Porto CCC.jpg

Cinco Poemas

de Inês Lourenço


AOS INTENSOS

Eles despovoam as superfícies e inventam
a geometria dos espaços, confundem
a pele com o Cosmos, nos jogos de água
do fogo e da madeira.

Desistiram de acreditar no fim
e no princípio
por que o tempo é eterno, e a pulsação
é teia de luas contínuas
e cegueiras vivas de encarar o sol.

Nativos da partida, gastam os passos
até ao próximo éden,
onde eva, adão e a serpente
serão provavelmente desconhecidos.

SIRENE

Bom é ter poucos amigos
poetas, para não ter de
trair a lisura do afecto
ou do texto. Mesmo esses poucos
chegam a nenhuns, se não
conseguimos elogiar epifanias
recessas, queixas piedosas ou
banalidades inócuas. Um amável
neófito muito badalado, ou um sénior
de vários prémios
literários, esperam deliciar-nos
com o verbo no cada vez mais
exíguo palco do poema
impresso. Assim ficamos sós
diante da própria e feroz espera
da negada surpresa. Como quem
adormece na ambulância
apesar da sirene.


PORTA DE ARMAS

Os teus dentes emboscados atrás
dos lábios entreabertos no indício
do sorriso, esse pré-aviso de facas,
anunciam a tua humana condição capaz
de morder e mastigar. A explicação
do mundo recomeça aí, nessa
porta de armas.


FONEMA

Agora que as sílabas estão vagas
dos fonemas tépidos que habitei na tua larva
esse teu nome,
tua descrição sumária e tua máscara,
presença e ausência sendo a pele
da mutação constante sendo ente,
lento é ainda entre os lábios e as gengivas
esse trajecto de umbilical sutura,
deserdando a garganta que regressa
do futuro do passado e do presente
numa página virada e transparente
hábito que desabito lentamente.

OS LIVROS

Os livros duram séculos e
falam da melodia da chuva,
dos rios e dos mares, das fontes,
dos húmidos beijos dos
amantes, mas também

morrem despedaçados num
qualquer temporal que parte
as vidraças e lhes tolhe as páginas
numa brutal invasão líquida.

E falam do fogo
das paixões, de estrelas
a arder no infinito,
mas o convívio das chamas
é-lhes vedado, apesar
da torpe ignorância,
a isso os ter condenado
tantas vezes.

Quantos naufrágios e incêndios
os destruiram, para depois
ressurgirem múltiplos,
audazes, amigos tão antigos e
tão novos.

Porto AA.jpg
(Fotos «samartaime)

Publicado por pilantra às novembro 7, 2008 12:30 AM

Comentários

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Publicado por: mikky às setembro 20, 2009 11:14 PM

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Publicado por: margo às setembro 21, 2009 05:13 AM

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