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outubro 20, 2008
Manuel de Freitas ou a Arte de falar sem falar nisso
LOVE ME TENDER
Estou cansado de pessoas.
Contudo, sentando ao balcão
a sua garrida mini-saia, Daisy
insiste em chorar sobre a sua quinta imperial.
Ainda bem que neste bar
não são admitidos pessoanos
(seria concorrência desleal,
convenhamos). E contudo Daisy
chora, esconde o rosto em lenços
de papel expressamente concebidos
para atenuar o desamor
e precaver a melancolia atípica.
Daisy chora, chora - e eu,
que nem disso sou capaz,
prometo a mim mesmo
deixar de sair à noite e começar
a escrever poesia metafisica.
in A Flor dos Terramotos, pp 46.
Ed.AVERNO, Lisboa, 2005
PAULINE E VILHELM
O meu marido foi para Skagen, pois
acredita, mais do que eu, que
a missão da actual pintura dinamarquesa
é trazer-nos com rudeza e pormenor
imagens cruas da província,
aquilo a que chamamos Natureza,
mesmo no que possa ter de humano.
Preferi ficar em Copenhaga e passear
logo de manhã pelos lagos, na
companhia de Vilhelm, que por uma vez
condescendeu. Vimos - além de cisnes,
patos e pardais - aqueles graciosos e ridículos
pássaros azuis cujo nome desconhecemos
ambos. Saltitam, voam mal e grasnam ainda pior.
Pergunto-me às vezes se a arte, o futuro
que dela nos é lícito imaginar, não será
uma coisa assim, uma cáustica despedida
do real que constitui, para Heinrich,
um valor supremo. Mas seria indelicado,
da minha parte, colocar essa questão a Vilhelm.
Já foi violência bastante tê-lo obrigado a este passeio.
De resto, ele nunca se interessou por animais.
A não ser, claro, por aquele a que chamamos
homem. Onde eu via pousar uma ave, ele via
apenas uma árvore, a irrepetível configuração
das sombras que a envolvem e é a imagem
mesma de tudo o que se perde numa
manhã de Agosto, ou durante a vida inteira.
Talvez seja por isso que se obstina
em pintar mulheres sem rosto
salas desertas e lições de trevas, portas
tão fechadas como os dias. Não me surpreendeu
que recusasse tomar um chá connosco
na próxima semana e mostrar-nos os seus últimos
trabalhos, que Heinrich moderadamente apreciaria.
Tentei desaconselhá-lo de pintar interiores
estéreis, quase previsíveis. «A melancolia,
caro Vilhelm, é um vício plebeu, um disparate».
Só quando nos despedimos percebi que a vida
de que lhe falava tinha, para ele, a espessura
exacta da morte, das portas tão fechadas como os dias.
in Brynt Kobolt , pp31
Ed.AVERNO, Lisboa, 2008
Publicado por pilantra às outubro 20, 2008 10:48 AM
Comentários
Um dos meus poetas preferidos, porque apesar de ser da nova geração, tem dentro dos seus poemas tudo o que me interessa das gerações anteriores.
Beijo
Inês
Publicado por: Inês Lourenço às novembro 1, 2008 01:15 AM