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agosto 12, 2008

Judith Herzberg (II)



O MAR

Ouve-se o mar
tapando as orelhas com as mãos
dentro de um búzio
num boião de mostarda,
ou à beira mar.


CANTIGA

Não me mintas por favor
sobre algo grandioso nem outra
coisa qualquer. Prefiro ouvir
de ti as piores criticas do que
mentiras que são piores ainda.

Não me mintas sobre o amor
sobre algo que sentes ou algo
que gostarias de sentir. Prefiro
ficar triste do que ouvir as tuas
mentiras que são mais tristes ainda.

Não me mintas sobre o perigo
porque sinto bem o teu medo
e aquilo que percebo é verdade
ou então não te conheço
o que é mais perigoso ainda.

Não me mintas sobre a doença
prefiro enfrentar o precipício
do que perder-me numa só
das tuas mentiras piedosas
porque a queda será maior ainda.

Não me mintas sobre a morte
porque enquanto estivermos por cá
o teu modo de excluir-me,
de não dizer o que pensas,
é pior e mais morte ainda.


TODAS AS MANHÃS

Todas as manhãs, entre o enfiar
do sapato esquerdo e do sapato direito
ele vê a vida desfilar-lhe diante dos olhos.
Por vezes só a custo consegue
calçar o sapato direito.


SENTIMENTAL

Sentados no carro numa fila,
com o rádio ligado, gases de escape
e música, uma canção ele diz
que acha bonita, sobre
violinos em fogo e uma dança que continua
até ao fim do amor.
Não pela canção mas pelo que ele diz
ela não consegue olhá-lo.
Agora há no carro uma coisa a mais:
música e gases de escape e embaraço.
Embaraço porque a dança
até ao fim do amor dura tempo de mais,
entra demais no passado
e no futuro, a alma
salta-lhe do peito, de repente tão desamparada,
ela diz apenas: «Sentimental».
Sim, diz ele, sentimental.
Ela nunca saberá se ele sabe
como ela sentiu essa palavra.
Ele nunca saberá o que ela
entendeu, até que ponto,
ela nunca saberá que ele
entendeu que ela entendeu
o que o transiu de repente, só se
alguém, talvez um historiador,
reconstituir mais tarde exactamente o que sentiam
as pessoas com rádios a tocar nas filas.


(Trad. de Ana Maria Carvalho)

O que resta do dia , Ed.Cavalo de Ferro.
Lisboa, Janeiro 2008

Publicado por pilantra às agosto 12, 2008 09:29 PM

Comentários

Querida,

nunca havia visto uma vida ser tão melancolicamete traduzida entre o calçar de um pé e outro de sapatos.

Vou levar para o travessia.

Beijos.

Publicado por: Bia às agosto 20, 2008 05:36 AM

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