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agosto 10, 2008

GRISALHA CABELO A CABELO



Estranhei o primeiro. Mandei-o para Londres,
mas o meu amor não o descobriu na carta em que o metera,
e assim caiu logo ao chão
onde ninguem mais o encontraria. Have one of mine,
ofereceu uma senhora idosa, mas
nessa altura ele só queria o meu cabelo.

O segundo descobriu-o o cabeleireiro.
A senhora quer que o deixe ficar ou prefere
que eu lho arranque. Que ele tenha dito «a senhora»
já achei esquisito, arranque-o lá disse-lhe mas
vi logo que, filosoficamente, não estava certo,
e decidi ter mais juízo
quando me aparecesse o terceiro.

O terceiro apareceu realmente, não o esperava.
Ainda o cobri com um tom arruivado
mas J. não gostou nada e
lá sabia porquê, porque
ainda há pouco estivera à beira da morte,
e assim com o quarto e o quinto
resolvi conformar-me.

Agora tenho cem e isso abre-me
portas. Para cabeças tão grisalhas
como a minha ou não, para linhas
que ainda podem desaparecer quase todas.
Sinto afinidades com rostos indefinidos,
totalmente áridos que pensam saber já tudo,
mas ainda se iluminam, ilusionistas,
sem rugas. Les absents ont tort,
quem pinta o cabelo nem sabe o que perde.

Judith Herzberg

Trad. de Ana Maria Carvalho

«O que resta do dia», edição Cavalo de Ferro.

Publicado por pilantra às agosto 10, 2008 06:25 PM

Comentários

É um poema interessante.E é sempre de aplaudir este tipo de escrita, que sendo intimista é simultâneamente universal, porque todos - se não morremos antes - envelhecemos. Sobretudo estamos fartos de pieguices e maus epigonismos "poéticos", com muito "silêncioo", muito "mar" e "barcos", que já foram glosados por grandes poetas.

Mas,... há muita gente que pinta o cabelo aos 18, aos 20, aos 30.Até por rebeldia e não para esconder grisalhos.Cá pelos portugais, há uns 40 anos - e antes, pior - as mulheres que pintavam o cabelo eram "mal vistas".
Lembro a propósito duas célebres loiras artificiais: Bardot e Marilyn.
Isto daria outro tipo de poema:

"Não sabe o que perde, quem não pinta o cabelo"...:)))))

Publicado por: logros consentidos às agosto 11, 2008 08:21 PM

que bonito!
nunca cheguei a esconder o meu 3º e desconheço o paradeiro dos seguintes... ;)

Publicado por: mjm às agosto 11, 2008 11:30 PM

ENA!!!
Já consigo q o weblog me reconheça os comentários!!!
IUPYYYYY
Até me apetecia ir a correr pintar o cabelo!
ahahahahaah

Publicado por: mjm às agosto 11, 2008 11:32 PM

Inês

Feliz ou infelizmente, há 40 anos eu vivia em países onde pintar o cabelo não era mais do que pintar o cabelo - que eu desse por isso; e nessa idade o mais importante, ou a única existência, é aquilo porque damos.
E aos 20 anos eu tinha tantos cabelos brancos que resolvi pintar os meus de... branco! rsrsrs Como nunca mais os pintei, hoje vivo a incongruência de ter menos cabelos brancos do que tinha aos vinte! rsrsrs

Como sabe, não estou de acordo consigo relativamente ao primado de algumas palavras (sentimentos) sobre outras palavras. Portanto, não aceito que hoje, tal como em quinhentos, «os barcos», «o silêncio» o «tanto mar» estejam fora de circulação por «pieguice» ou porque outros, grandes, já esgotaram o tema. Nesse caminho, toda a edição poderá ser queimada que já temos, só ocidentalmente falando, a Odisseia e a Ilíada a dizerem tudo - tudo o quê? O deles, não por certo o nosso.

Além disso, o que são «os grandes»? Para mim, os grandes são a fruta da época que sobrevive em compota. E eu gosto de compota: da doce como da picante, da ácida como da amarga. Perco-me por compota! rsrsrsrs

Publicado por: pilantra às agosto 12, 2008 11:32 AM

João

pelo menos temos em comum a vadiação do cabelo! rsrsrs

E sim, a weblog deixa-te comentar! Houve aqui uma avaria cuja culpa foi minha: arranjei um modo estranho de «assaltar» o meu blogue e depois não atinei com a saída! rsrsrsrs

Publicado por: pilantra às agosto 12, 2008 12:12 PM

Bom dia, querida:

vamos primeiro aos cabelos.

Confundiu-me o poema. Não pinto os meus cabelos com tinturas para esconder os fios brancos. Mas, gosto de passar henna. Há muitos anos. Os fios brancos ficam pulando na cabeça, só que avermelhados, e destacam-se dos castanhos que restam. Assim, concluo que não os escondo...rsrsrs...

Quanto ao mares e silêncios e barcos, causam-me nos últimos anos alguma alergia. Assim, acho que, sem queimar a Ilíada ou a Odisséia, ultimamente prefiro os "pequenos" - e chamo-os pequenos somente porque jamais serão famosos - poetas. E, especialmente os que são áridos, como Torquato Neto, que "desafinou o coro dos contentes"

(também, quem mandou nascer no Piauí?):


"O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral -
alô, poetas: poesia
no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.

A poesia é o pai da ar
timanha de sempre: quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso: ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.a
r: em primeiríssimo, o lugar

poetemos pois".

(Os últimos dias de Paupéria / 1973)


Beijo.

Publicado por: Anonymous às agosto 12, 2008 12:12 PM

E lá fui eu como "Anonymous", palavra terrível...

Beijos, de novo.

Publicado por: Bia às agosto 12, 2008 12:27 PM

Não sei quem é o comentador "pilantra/joão". Mas, quero chamar-lhe a atenção para o que lá está REALMENTE no meu comentáryo: "estamos fartos de pieguices de maus epígonos". Pois com os "grandes" quero precisamente referir, que prefiro ir reker pela vigésima vez "A Ilíada" ea "Odisseia" ou mesmo a Sophia ou o Eugénio que também falam de "mar e "barcos", que certos sucedâneos requentados, que só provocam bocejo a quem conhece alguma coisa do que se escreveu e se está a escrever. Você tresleu o meu comentário. E se me conhecesse minimamente (ou aos meus livros)nunca ia lançar mão de argumentos fundamentalistas e simplistas, que julgou ler.

Basta abrir alguns blogues cheios de "poemas" com umbigais e pecas nostalgias marinhas igualzinhas a 50.000 , para constatar o que eu digo.E o mais cómico é que esses blogues têm dezenas de comentadores e comentadoras extasiados: "lindo"! "que beleza"! "obrigada, por esta maravilha!"!
Era a isso que me referia, a essa ilusória maneira, tão corrente, de trazer os temas "eternos" para um texto, sem o devido cuidado e TENTATIVA de inovação.Entendido. Uff!

Mais uma vez constato, que num blogue, falar de poesia, para além de microcéfalas jaculatórias, não vale a pena. E não caio noutra enquanto me lembrar desta...

Uma palavra de apreço para o poeta brasileiro.
É urgente conhecer a nova poesia brasileira. Ficámos em Drummond e em Cabral do Melo Neto.Há um outro enorme poeta, pouco conhecido, cá: Manoel de Barros (o poeta do Pantanal).

Publicado por: Inês Lourenço às agosto 12, 2008 02:58 PM

Inês,

Manoel de Barros até aqui é um ilustríssimo-poeta-quase-desconhecido. Pude conhecê-lo graças à minha tresloucada irmã mais nova - rsrsrs - que decidiu ir morar na Ilha do Bananal, em Mato Grosso, no final da década de 70. Lá encantou-se com Manoel de Barros e Cora Coralina e os apresentou a mim.

Dele amo tudo o que conheço. E embora seu livro mais conhecido seja o "Livro das ignorânças", tenho especial aprêço pelo "O Guardador de águas", do qual lhe mando uma "palhinha":

"...O vôo do jaburu é mais encorpado do que o vôo das horas.
Besouro só entra em amavios se encontra a fêmea dele vagando por escórias...
A 15 metros do arco-íris o sol é cheiroso.
Caracóis não aplicam saliva em vidros; mas, nos brejos,se embutem até o latejo.
Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.
Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes.
Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a fazer parte dos pássaros que a gorjeiam.
Quando a rã de cor palha está para ter - ela espicha os olhinhos para Deus.
De cada 20 calangos, enlanguescidos por estrelas, 15 perdem o rumo das grotas.
Todas estas informações têm uma soberba desimportância científica - como andar de costas."

Abraço.

PS: Ah! e temos Adélia Prado, a católica mais profana que conheço!

Publicado por: Bia às agosto 12, 2008 06:37 PM

Ó INÊS!... Sou eu própria, a Pilantra! rsrsrsrs
Quem se lembraria de chamar aos poetas «fruta da época»?! rsrsrs
E não conheço os seus poemas? rsrsrsrs Ora então tome lá esta sua fruta da época que pouca gente deve saber onde está publicado:

«Arritmia

Este músculo assassino, que
bate irregular, e
me roubaste - como dizia
a lira romântica - é hoje
uma mera peça anatómica
que pode ser trocada ou invadida
por estranhas terapias.

Mas só consinto a troca
por aquele coração
de casca de árvore e líquenes,
onde gravámos o nosso nome.»

Inês Lourenço/ JAN 2008


Ora aqui está uma fruta da época bem romântica!
rsrsrsrs Aposto que este vai ficar para compota!

E a João é uma amiga minha: gente de paz mas não pacífica. E que faz parte da minha «fruta da época».

E deixo um aviso aqui às intervenientes: vou escolher mais uns poemas da Judith Herzberg. É uma poeta holandesa de que muito gosto.

E a «Bia Anónima» que faça o favor de nos mandar mais poetas «desconhecidos» brasileiros!

Beijos a todas, e siga o baile!

Publicado por: pilantra às agosto 12, 2008 07:40 PM

Adélia Prado e Cora Coralina eu conheço, Bia.
Mas Manoel de Barros e Torquato Neto, não tenho ideia mesmo!

Mas eu tenho uma «professora particular» para a literatura brasileira. E se não sei mais é por pura preguiça - digamos assim.
(Me está lendo, Malu????)

Publicado por: pilantra às agosto 12, 2008 07:59 PM

Nélinha,

Fiz confusão, com as dificuldades de acesso, o "joão", a pressa,o olho enevoado, etc, como já lhe expliquei por mail, por não conseguir entrar de novo nesta caixa.
Quanto ao Manoel de Barros há na "Quasi" uma substancial antologia, publicada, creio o ano passado. E havia uma coisa dele, mais pequena na mesma editora, cerca de 2000, chamada "Arranjos para assobio".
Quanto à "Arritmia" foi uma gracinha que me pediu uma pequena editora, para sair num livrinho do "Dia dos namorasos". Realmente tem a ver com compota demasiado açucarada para o meu "cânone" usual.

Bia; Obrigada. A Adélia Prado, sim senhora; a Cecília Meireles e outra que não sendo poeta,foi nos idos de 80 uma grande descoberta para mim:


"A CLARICE LISPECTOR

Do texto não as pinças mas o lábio
da trama não o fio mas o hausto
do rosto não o facto mas o feixe
da venda não a fresta
mais que o laço."

(1986)
I.L.

PS - Tinha lido "A Paixão segundo G. H.".

Publicado por: Inês Lourenço às agosto 14, 2008 12:09 AM

b adorei Guimarães Rosa e os "clássicos" Machado de Assis, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos.

Publicado por: Inês Lourenço às agosto 14, 2008 12:29 AM

Mas esta caixa é terrível!!
Agora saiu a correcção do poema,a que faltava um verso, truncado...

Repito:

"Do texto não as pinças mas o lábio
da trama não o fio mas o hausto
do rosto não o facto mas o feixe
do timbre não o fundo mas a fenda
da venda não a fresta
mais que o laçp."

I. L.
(1986)

PS - Venha mais Judith. Excelente.
Vamos lá a ver se isto entra...

Publicado por: Inês Lourenço às agosto 14, 2008 12:44 AM

Mais um poema de Judith Herzberg:


PENSAMENTOS

( na morte de Sylvia Plath)

Esperamos de pé atrás da linha, nus,
Quem está à frente procura recuar
quem está atrás procura avançar.

Fazem um lance sobre as nossas cabeças.
Quem mais medo tem mais tem a recear –
ninguém sabe para o que é escolhido.

Acabei de ouvir a má nova,
eu que escapei por milagre à morte
choro agora a morte sa minha irmã.

O mene tequel (*) é um animal,
uma formiga, um caranguejo, a rastejar
sobre carris quentes com pinças negras de carvão.

O consolo para quem não tem abrigo
nunca vem em forma de tecto
mas da boca de desabrigados.

Para a crinaça espantada que
ainda não nasceu, o espaço
não se volta do avesso.

Que se vá refugiar junto
dos lobos, se ainda houver
desses lobos maternais.


(*) Referência a «MENE MENE TEKEL UPHARSIN», palavras escritas por mão misteriosa na parede do palácio de Belsassar que só o profeta Daniel foi capaz de decifrar como a sentença do Deus de Israel contra Belsazar e o Império Neobabilónico. […] N. da T., Ana Maria Carvalho.

Publicado por: pilantra às agosto 14, 2008 09:12 PM

Este "magazine" só me permite agora chegar de mãos vazias...rsrsrs...
Mas, deu para ver o poema. Triste, muito triste. Só não é mais triste do que a dor real de perder um amigo.Como eu perdi meu amigo Gribel há um mês. Um homem para quem a amizade era solene. Destes que não existem mais. Talvez um lobo ...paternal.

Beijão


Publicado por: Bia às agosto 15, 2008 05:25 AM

Inês,

a dona desta casa tem ali ao lado uma música cantada pela Adriana Calcanhoto - Um dia desses... - cuja letra é do Torquato Neto. Esta é uma das canções que ele fez (essa é uma parceria com Paulo Diniz) fora da Tropicália, com Caetano e Gil. Ouça. É muito bonita. E leve.

Abraço

Publicado por: Bia às agosto 15, 2008 06:43 PM

Inês,

após sugerir que vc ouvisse a música ao lado, fiquei temerosa que vc desistisse de conhece-lo. A música é mesmo meio brega, como se diz aqui. Mas, percebo nela uma imensa e doce ironia.
O site dele - que este magazine não me deixa incluir porque pensa que é spam, mas que vc localiza no Google - mostra melhor que além das canções da Tropicália, ou dessa composição aparentemente ingênua e tola, a obra dele como poeta - suicida aos 28 anos - foi prejudicada pela pecha de poeta maldito. Ou "Anjo torto".

Um abraço

Publicado por: Bia às agosto 16, 2008 04:28 PM

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