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julho 13, 2008
Ladrões de bicicletas - Vittorio de Sica (1948)
Mil quilómetros por dia pedalava meu pai, desde
a cama junto ao Douro até à próspera Cerâmica
de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta inimigos por hora,
imaginem a jornada de um operário ciclista.
Tudo são despesas para ele: o rosário de geada
nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor
da Primavera, a poalha do suor em cada mão.
Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto
de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos
de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho
em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,
erguido nos pedais do seu veículo de sombra,
solitário trepador pela encosta de Avintes. Não
trabalha em nenhum matadouro. E nesse reconforto
passa a Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,
sente já o rumor de fumacentos camiões na nacional.
José Miguel Silva
(fotos samartaime, 2008)
Publicado por pilantra às julho 13, 2008 01:35 AM
Comentários
Bom post!
Publicado por: eu às julho 23, 2008 03:54 PM
nao gosto
Publicado por: é às julho 24, 2008 08:13 PM