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fevereiro 19, 2008
As velhas cheias de Lisboa
Maria Elisa voltou à RTP com a memória das cheias de 67 e fui ver no que dava. Que ainda me lembro e duvido que alguém que viu tenha esquecido.
Estava em Lisboa havia menos de uma semana e fui jantar a casa de uns amigos. Saí pouco depois da meia-noite. Chovia bastante e eu teria de percorrer a 24 de Julho e a Av. da Índia que, tradicionalmente, alagavam. Principalmente a 24 de Julho.
Desci a Infante Santo e ao fundo, sob o viaduto, vejo um espelho escuro. Aproximei-me muito devagar: era água. Mas água como? Como era possível aquela piscina? Abateu o chão? Eu não conseguia atinar com o que via. Virei o carro e subi a Infante Santo.
Enquanto pensava noutro caminho, talvez a Maria Pia para Alcântara, liguei o rádio. E ouvi o Fialho Gouveia a pedir barcos de borracha para a Praça de Espanha. Que havia autocarros presos na lama e era preciso tirar de lá as pessoas antes que subisse mais «a água».
Lembrei-me de me terem contado da experiência da «invasão dos marcianos», uma reposição portuguesa do programa do Orson Wells, e pensei: estes tipos estão loucos, vai dar barafunda outra vez! Mas de repente lembrei-me da água na Infante Santo, parei o carro e fiquei a ouvir. Havia cheias em Lisboa, pediam mesmo barcos para a Praça de Espanha. Pediam para se evitar a zona baixa da cidade e quem precisasse seguir para zona ocidental que utilizasse a autoestrada . E fui para a autoestrada meio preocupada meio incrédula, apesar da evidência das ruas transformadas em ribeiras agitadas e da chuva grossa que não parava.
A subida da autoestrada, vista do viaduto, era uma serpente gorda de luzes vermelhas, quase parada. No alto da subida havia polícia: tinham feito uma abertura no separador e só podia seguir quem ia para Montes Claros. Os outros tinham de voltar para Lisboa e procurar onde passar a noite que havia problema com um paiol não sei onde e Algés e o Dafundo «estavam fechados à circulação».
Mas no dia seguinte foi pior. Lembrei-me de descer até Algés, pensando nas caves – que hoje são lojas por causa dessas cheias: foi proibido serem utilizadas para habitação.
Porque muita gente ficou aí encurralada na lama. Morreu gente nas casas da rua Damião de Góis, na Rua dos Lusíadas e naquelas ruas ali à volta. Morreu gente no largo da praça de Touros. Morreu gente junto ao Mercado. Nos passeios.
Nunca soubemos quantos morreram. Morreram. Alguns deixaram as mãos marcadas nas paredes. Outros sobreviveram à família por casualidade e nunca mais foram quem eram.
Em Odivelas foi ainda pior, eu sei. A Maria Elisa recordou-o, e bem, em pormenor.
Morreram centenas de pessoas. E hoje, tal como dantes, não sabemos nem quem nem quantos.
A censura do fascismo apagou-os.
Uns tantos ficámos a saber que é sempre possível a repetição do desastre e que há modos de o prevenir e evitar o cataclismo. De que valeu?
Nem de propósito: acabado o programa da Maria Elisa, repetiu-se outra noite de pandemónio.
De novo a zona ribeirinha de Lisboa alagou. De novo a ribeira do Jamor matou.
Tivemos muito menos mortes, felizmente. Mas os estragos materiais são idênticos.
Até quando, Catilina?
Publicado por pilantra às fevereiro 19, 2008 06:25 PM
Comentários
... enquanto houver "fado"!!! e nós a assobiarmos para o lado
Publicado por: segurademim às fevereiro 20, 2008 10:58 AM
Bom dia, de novo, querida:
começo a preocupar-me com tantas semelhanças. Pri-meiro o croquis que nos serve - rsrs...- e agora a descrição de enchentes que são as que se repetem aqui, de norte a sul, de sudeste a nordeste.
Aqui há uma indústria de "providências" pós tragédias anunciadas: distribuição de cestas básicas, muitos kilometros de lonas para se fazerem barracos para os desabrigados e a mesma e repetida e desumana e desonesta incúria - ou "senso de oportunidade" - dos governantes.
Aqui se contabiliza parte dos que morrem. A outra parte, ninguém sequer sabe que morreu.
Apesar do desalento, um beijo grande.
PS: tua descrição arrepia. Vi cada cena, ainda que não conheça Lisboa.
Publicado por: Anonymous às fevereiro 21, 2008 01:35 PM